segunda-feira, 21 de março de 2011

Convidados para a grande festa

Todas as segundas-feiras há um culto para os pacientes no hospital. Já preguei algumas vezes ali e nessa semana novamente fui convidado a dar “a palavra”. Fiz uma meditação na parábola da grande festa, relatada no evangelho de Lucas capítulo 14:15-24. Nessa história, Jesus conta sobre o “grande banquete apocalíptico”, ou seja, o banquete final, imagem da restauração e redenção final da humanidade, vivendo na presença de Deus em paz e justiça afinal. Porém, nessa história, surpreendente e injustificadamente, muitos se recusam a ir. Contei a história e fiquei imaginando quantos ali que me ouviam não tinham o suficiente sobre suas mesas, mas estavam convidados a participar desse banquete. Aliás, os ricos da parábola nem quiseram ir ao banquete, preferindo se distrair com seus próprios afazeres, suas próprias posses, ou seus próprios relacionamentos. Os que eram pobres, aleijados, alijados, foram os que acabaram assentando-se à mesa. Assim eram muitos ali: doentes, com incapacidades físicas, sociais, financeiras, mas que podiam desfrutar já antecipadamente da paz, alegria e da festa de ser aceito por Deus, e se relacionar com Ele. Sei que isto pode soar como escapismo ou apenas uma idéia etérea para minimizar os problemas terrenos reais, mas não vejo assim. É uma esperança real, concreta, que anima e motiva, sabendo que o bem há de prevalecer, como todos os bons filmes testificam. Nos leva também a no presente lutar por uma sociedade mais justa e fraterna, sinal do Reino de Deus entre nós.

domingo, 13 de março de 2011

Dia Internacional da Mulher? Eihn??

Esse ano aqui eles perderam um de seus feriados: o dia internacional da mulher, que é feriado nacional aqui, caiu na terça de carnaval, também feriado. Assim, não se lembrou muito da mulher, já que aqui também tem "folia", apesar de se limitar basicamente à terça-feira e não contagiar tanto o país como o que acontece no Brasil.
Bem, o que queria comentar não é sobre o carnaval e sim sobre o Dia Internacional da Mulher, diante do que acontece aqui. Na quarta-feita, dia 09, atendi uma senhora que havia vindo de longe para consulta. Trazia inúmeras receitas e exames, simples e básicos mas numerosos, que não mostravam doença aparente. Suas queixas eram um pouco como chamamos no meio médico "inespecíficas", do tipo dor no peito e nas costas, mas sem apontar para uma doença cardíaca, pulmonar ou da caixa torácica. Tinha também insônia e parecia deprimida, apesar de negar estar "para baixo". (Um parêntese: minha experiência aqui é que os angolanos tendem a negar problemas emocionais, ainda mais do que os brasileiros, o que parece ser assim o substrato mais favorável para o surgimento das doenças chamadas psicossomáticas, ou seja, o corpo grita quando nossa mente não produz outros meios de expressar os "problemas da alma".)
Enfim, diante dessa impressão comecei a indagar um pouco sua vida pessoal e ela me revelou o seguinte: foi mãe de sete filhos, dos quais seis ainda vivem, o mais velho com 17 anos e o mais novo com quatro anos. O "esposo", se posso chamar assim, no início a tinha como única esposa, mas com o passar do tempo foi arrumando mais esposas, e atualmente era "esposo" de cinco (!!!). O número de filhos foi diminuindo à medida que as esposas se acumulavam. Três com a segunda, dois com a terceira, um com a quarta e a quinta, uma adolescente de 17 anos, encontra-se grávida no momento. Perguntei com qual delas ele vivia ou como se dividia entre suas mulheres. Ela então me disse que não sabia bem. Nunca dorme na casa dela nos últimos anos, mas vem todos os dias para pegar suas roupas lavadas, comer, e, pasmem, pegar dinheiro com ela, que tem uma vendinha na feira popular daqui, chamada de "praça". Ela disse que até agressões físicas sofria do "marido", especialmente se não lhe dava dinheiro.
Enquanto ia perguntando e ela ia respondendo, algumas lágrimas apareceram em seus olhos. Tinha motivos para as dores no peito e nas costas! Que situação mais oprimente!
O pior é que esta história aqui se repete de forma tão freqüente... e se repete também por toda África, infelizmente, tanto no ambiente urbano, quanto, até de forma mais comum, no ambiente rural, em culturas onde o privilégio masculino e a opressão feminina ainda sobrevivem no mundo atual. Além disso, para piorar a situação, a violência doméstica é extremamente comum aqui, quadro agravado pelo consumo quase que desenfreado do álcool.

O que vale o Dia Internacional da Mulher como feriado nacional?

Nos faz lembrar a conversa de Jesus com a mulher samaritana, relatada no capítulo 4 do evangelho de João: "se você conhecesse quem é esse que te pede água, você lhe pediria e ele te daria da água da vida."
Viva a mulher angolana! Que Deus as ajude a enxergar a sua própria dignidade e a quebrar esse jugo perverso!

sábado, 5 de março de 2011

Você já ouviu falar de fístula vésico-vaginal?


Fique tranqüilo: não é nenhum termo pornográfico. Na verdade, é uma doença. Não me lembro se conhecia essa doença antes de vir para a África. Aqui, fiquei conhecendo não apenas a doença, mas seus terríveis efeitos.
Se trata normalmente de uma complicação obstétrica (especialmente aqui na África), geralmente em partos muito prolongados, que levam até dias. A situação mais comum aqui é a seguinte: meninas novas, pobres e sem acesso a assistência médica, se engravidam e na hora do parto, a cabeça da criança simplesmente é maior do que a passagem da sua pelve, ou há alguma outra complicação que dificulta a passagem do bebê. O trabalho de parto se prolonga indefinidamente já que ou não têm acesso a serviços de saúde (o que é mais frequente) ou não querem ir ao hospital por medo ou vergonha de não "conseguirem ser mãe por si mesmas." Com a morte do bebê ao fim do trabalho de parto infindável e mal sucedido, acontece também a laceração da bexiga e da vagina.
As consequencias médicas, psicológicas e sociais são simplesmente trágicas: a menina perde a criança, com todo o peso emocional disto, e fica com uma ferida que faz a urina "vazar" da bexiga para a vagina, fazendo que ela fique constantemente "molhada" e com cheiro de urina.
O marido geralmente abandona sua esposa jovem em decorrência disso, com toda a humilhação e opróbrio secundários. Além disso, devido ao seu mau cheiro, as meninas acabam vivendo isoladas da família e da sociedade.
Triste demais, né? Bom, a boa notícia é que nosso hospital tem uma verba especial de uma entidade norte-americana, a Fistula Foundation, para tratar essas meninas, que geralmente são muito pobres e vêem dos grotões longínquos do país. Elas são operadas e acompanhadas em nosso hospital, que oferece também apoio logístico para ficarem por perto até o término do tratamento. Muitas têm assim sua saúde e dignidade restauradas.
Fico muito feliz por este trabalho que nosso hospital faz, mudando a realidade de tantas meninas de forma tão significativa.
Essa foto é de uma enfermeira canadense que passou conosco três meses e se dedicou a dar aulas para as meninas com fístula, ajudando-as a melhorar sua auto-estima e ensinando-as coisas práticas como matemática simples, costura e artesanato. Bonito trabalho. Valeu, Angela.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Gosto doce e azedo

Estamos de volta à bela Lubango, graças a Deus. É bom estar aqui, sentindo que é aqui que o Senhor nos colocou para servi-lo. Tivemos um bom tempo no Brasil, revendo família, amigos, irmãos. E comendo muito hehehe. Engordei 3 kg, apesar de ter tentado segurar e ter aumentado a atividade física. Agora é correr atrás do prejuízo, metafórica e literalmente. Aliás, estou correndo agora em Lubango de uma maneira mais regular. Tenho corrido nas ruas de terra mesmo, apesar de que a chuva nessa época, quase que todo dia e algumas vezes o dia todo, atrapalha bastante. É interessante correr no meio das vilas aqui, e acho que chamo muito a atenção. O pessoal fica olhando, às vezes rindo, às vezes acenando, diante da insólita visão de um branquelo invadindo correndo o seu mundo. É meio humilhante para mim, que sirvo de espetáculo, mas se faço pessoas felizes tá bom hehehe. Ontem ao passar por mim um rapaz fez uma gozação gritando: "Ô escurinho..." Acho que ele estava rindo das minhas pernas brancas eheheh.

No hospital os sentimentos oscilam entre a satisfação de se fazer o bem e a tristeza de não conseguir fazê-lo. Na quinta-feira chegou um menino de três meses com insuficiência respiratória e o diagnóstico que conseguimos dar foi de malária grave, acometendo o pulmão. Fizemos o possível diante dos nossos recursos limitados para salvá-lo, mas ele evoluiu para a morte em poucas horas. Quando estava agonizando, perguntei para a tia que estava ao lado da cama, já que parece que a mãe não estava agüentando aquela cena, sobre quantos filhos a mãe tinha, tentando me consolar se ouvisse que a mãe tinha muitos outros filhos, o que é comum aqui. A resposta porém, ao invés de consolar, me entristeceu mais, já que a mãe tinha tido cinco filhos, mas esse era o terceiro que morria, só sobrando à mãe duas meninas. Algo trágico demais mas, infelizmente, nem tão incomum aqui. Se a gente no Brasil não consegue aceitar a perda de um filho, e com razão, fiquei tentando imaginar o que significava já ter perdido três dos cinco filhos, todos amados certamente, diante do amor que essa mãe mostrava por esse pequenininho.

A gente aqui fica pensando se há esperança para essa terra, se Deus pode fazer alguma coisa, e por que não faz o que a gente gostaria de ver? Estou lendo o livro "Oração" do Philip Yancey, onde ele reflete sobre essas perguntas, sem cair em clichês e simplismos. Continuemos a orar por Angola. "Que venha o teu Reino, Senhor."

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Quanto vale esse sorriso?


Essa menina com esse belo sorriso se chama Ruth Bimbi e tem dez meses.
No sábado à noite fomos chamados pelo hospital porque havia chegado uma menina com dificuldade importante para respirar, depois de um período em que tinha estado rouca. Enquanto falavam comigo ao telefone, podia escutar a menina respirando de forma bem ruidosa, aparentando pelo ruído respiratório uma obstrução das vias respiratórias. Diante da história de rouquidão e com aquela respiração sonora, suspeitei de obstrução da glote ou laringe, e pedi que fizessem adrenalina e corticóide mesmo antes de eu chegar ao hospital. Subi de carro para o hospital bastante desesperado, orando pela menina. Quando cheguei ao hospital, a menina estava com uma insuficiência respiratória grave e com sinais de obstrução das vias aéreas, que não haviam melhorado com as medicações. A mãe relatou que os sintomas haviam iniciado há uns 2 dias, quando estava dando uma sopa com peixe e possivelmente a menina havia “se engasgado” com um espinho de peixe, iniciando a rouquidão. No sábado havia começado a ter dificuldade para respirar, que foi piorando progressivamente, e aí a mãe levou a menina ao hospital.
Enquanto meio desesperadamente tentava qualquer coisa para manter a menina respirando, consegui falar com o cirurgião angolano que dá cobertura na ausência do Dr. Foster, que se dispôs a ir até o hospital, depois de pegar o anestesista de plantão. Depois de uma hora eles chegaram e a menina bravamente “agüentava as pontas”. Levamos a menina para o bloco cirúrgico e com alguma dificuldade fizemos a traqueostomia para que respirasse bem. Depois da pequena cirurgia a “miúda” (como eles dizem por aqui) respirava normalmente e dormiu sossegada. Agora aguarda a chegada do Dr. Foster para que ele possa fazer um exame para ver e retirar o corpo estranho, se ainda estiver lá, e podermos tirar a traqueostomia para ela voltar para casa.
Com essas experiências a gente fica pensando sobre o valor da vida. Que alegria poder ter participado na preservação da vida dessa criança. Que recompensa em ver o seu sorriso (nos primeiros dias ela chorava quando me via hehehe). Fico pensando que valeria a pena ter vindo para Angola só por esse motivo, mas acho que a gente tem mais vidas para ajudar a salvar aqui. Continuem orando por nós e por aqueles diante de quem nos encontramos, às vezes em condições de ajudar e muitas vezes infelizmente não. Que o Senhor continue nos usando aqui como instrumentos do Seu amor e graça.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O que vc fez sábado?





Bom, a vida aqui tem suas compensações. Estamos a mais ou menos umas 2 horas da praia (mineirinhos, morram de inveja hehehe), apesar de que se quisermos uma praia mais isolada, mais "pura", aí leva-se perto de 3 horas. Sábado passado fomos explorar uma praia ainda desconhecida da turma de missionários aqui. E valeu a pena. O caminho era no meio do deserto, no meio de belas estruturas arenosas, esculpidas pela mão do Senhor através do vento e da água (quando esta aparece por aqui). Enfim chegamos. Uma praia linda, na ponta do deserto. Ficamos lá umas 4 horas, curtindo uma gostosa praia e também explorando o local. Para nossa surpresa (nem tanto, porque isso não é tão raro por essas bandas) apareceram umas baleias para nos saudar (baleias mesmo, não estou me referindo pejorativamente a nenhuma mulher gorda; não dá para ver na resolução de foto do blog mas, acreditem, eram baleias mesmo). Fiquei pensando: se estivesse em BH a essa hora estaria talvez assistindo a algum jogo da Série B na Rede TV hehehe, que upgrade! hehehe Foi um tempo muito gostoso e a viagem em si é cheia de paisagens bonitas, apesar de trechos do caminho onde só se passa com um bom 4X4. Estou virando traileiro aqui também. Os meninos estão aprendendo a curtir mais a natureza, se desintoxicando da vida de "Pátio Savassi" aos sábados hehehe.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Cinco mulheres!

Estava fazendo uma consulta de uma senhora, e um dos testes para sífilis foi positivo. O esposo estava na sala e iria tratá-lo também. A enfermeira que me acompanhava teve a esperteza de perguntar-lhe quantas mulheres ele tinha para também serem tratadas, pergunta que não passaria pela minha cabeça. Para minha surpresa ele respondeu que tinha cinco mulheres! Eu até ri, e ele riu também. A esposa riu meio sem graça, numa mistura de constrangimento e aquiescência. Meu riso foi meio reflexo, sem pensar na seriedade da questão, só imaginando o absurdo prático da situação.

Olha que o homem não era nenhum líder tribal que vivia no meio do mato aqui. Era funcionário público e tinha um nível de escolaridade razoável. A enfermeira até tentou questioná-lo, perguntando se ele era tão rico assim para sustentar tanta gente. Ele respondeu que as mulheres ajudavam no sustento, e assim dava para sobreviver.

Mesmo sob o risco de ser taxado de etnocêntrico e desrespeitador das culturas alheias, fico pensando na situação da mulher africana, objeto do prazer e da satisfação masculina, se submetendo a uma relação de dominação e uso. Aqui a gente vê também as mulheres trabalhando para sustentar maridos que pouco se esforçam para cuidar de suas famílias. A senhora que trabalha conosco acorda cedo para buscar água para a família para depois vir para nossa casa, enquanto o marido encontra-se desempregado há meses (pediu demissão...) e não tem "forças" para pegar a água para sua casa. A Norinha tem feito seu trabalho "subversivo" na cabeça dela hehehe.

Creio que vai levar muitos anos para a condição da mulher mudar por aqui. Na minha classe de Novo Testamento ensinei na semana passada, no estudo do livro de Efésios, como o marido deve amar sua esposa "como Cristo amou sua igreja", se entregando totalmente por ela. Nós brasileiros, eu inclusive, precisamos aprender isso também.