sábado, 11 de junho de 2011

Há quanto tempo você tem esse problema?


Estou escrevendo sobre esse paciente na foto, para ilustrar um problema comum que encontramos no hospital. Como podem ver, esse paciente apresenta uma massa enorme sob sua mandíbula, que empurrava a língua e já estava dificultando a fala e também a deglutição. Ele vinha de uma pequena cidade a uns 400 km de distância. Sua idade é 21 anos, e quando perguntei há quanto tempo aquilo estava crescendo, para meu espanto ele me respondeu: “desde que eu era bebê”. Demorei um pouco a acreditar, mas infelizmente essa é a realidade no país. As pessoas que vivem um pouco mais distantes dos centros urbanos muitas vezes não têm qualquer médico na região que possam consultar. Quando moram nos centros urbanos, existem médicos, mas o acesso muitas vezes é difícil e a qualidade muitas vezes deixa muito a desejar, sem contar que muitas vezes os pacientes são maltratados, além de mal tratados (deu para fazer um trocadilho?). Assim, não faz muito parte da cultura procurar pelo médico diante de algo com que se dê para conviver. Se a coisa começa a piorar ou a preocupar, a primeira opção na maioria das vezes não é procurar algum atendimento médico, mesmo que exista por perto, o que nem sempre é o caso como disse. As pessoas geralmente procuram algum tipo de curandeiro, mesmo porque acreditam que todas as doenças vêem de algum mal olhado ou feitiço que alguém colocou. Se, depois da “mandinga” a coisa não se resolve, e principalmente se há piora, passa-se a considerar procurar atendimento médico. O nosso paciente nasceu com um pequeno cisto que foi crescendo progressivamente. Como conseguia conviver com o problema, apesar do desconforto e do óbvio problema estético, ele foi levando por anos e anos, até que o volume aumentou demais e passou a atrapalhar sua fala e alimentação. Quando vi essa massa enorme, e diante da história que o paciente contou, me lembrei que na pediatria estudávamos um tipo de cisto, chamado cisto tireoglosso, que crescia na região. O que era quase inacreditável é que nunca tivesse sido abordado e tivesse chegado a esse tamanho. Graças a Deus o Dr Steve Foster tem uma boa reputação por todo o país, e esse paciente, mesmo morando longe, tinha conhecimento do nosso hospital e veio consultar conosco. Encaminhei-o ao Dr Foster, que agendou a cirurgia e corrigiu o problema. O lema do nosso hospital é “Saúde através de Jesus Cristo”. A razão de estarmos ali é para que haja atendimento médico de qualidade disponível, e que as pessoas cada vez menos recorram aos “curandeiros”, se expondo a todo tipo de complicação, tanto do ponto de vista médico quanto do ponto de vista espiritual; para que possar deixar os mitos e enganos e conhecer “o Caminho, a Verdade, e a Vida”.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Espera recompensada / Visita a Victoria Falls - Zimbábue














Enquanto estamos esperando os vistos para voltar ao trabalho, tivemos um presente divino. Um casal de missionários nos presenteou com uma semana de hospedagem em Victoria Falls, no Zimbábue. É um dos lugares mais lindos do mundo, considerado uma das sete maravilhas naturais do mundo, junto com a nossa Baía de Guanabara, o Himalaia, Grand Canion, e outras três. Assim, viajamos de carro cerca de 1450 km e passamos uma semana ali. Na viagem, além de conhecermos um pouco de Botswana, um belo país com uma boa estrutura de turismo, pudemos ver alguns elefantes e antílopes ao lado da estrada.
Em Zimbabue, além de termos ficado em um belo condomínio, com presença constante de pequenos javalis, babuínos, e alguns viadinhos (os animais mesmo hehehe) ao redor da nossa casa, pudemos visitar as magníficas cataratas, uma das vistas mais impressionantes do mundo. Era época de cheia e o vapor que sobe das quedas, pelo volume das águas, forma nuvens de "spray" que sobem a uns 100 m acima do topo das cataratas, molhando bastante quem se aproxima.
No parque das cataratas também encontramos a famosa estátua em homenagem ao missionário médico pioneiro e desbravador do interior africano David Livingstone (1813-1873). Aos que questionam os benefícios da presença missionária na África, recomendo o excelente artigo, escrito por um jornalista britânico ateu, em inglês, discutindo sobre o efeito do Evangelho na África: http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/columnists/matthew_parris/article5400568.ece
Na região também, além do impressionante rio Zambezi, que forma as cataratas, e no qual fizemos um passeio de barco, assistindo hipopótamos e crocodilos em seu habitat, a gente pode fazer passeios e ver todo tipo de animais selvagens, como antílopes, girafas, elefantes, entre outros. A quantidade de elefantes é tão impressionante, que vimos passar em frente ao nosso carro, num passeio ao Parque Nacional do Zambezi, uma manada de quase uns 100 elefantes, de todos os tamanhos. Eles também visitavam o poço de água em frente ao nosso hotel, e até a estrada próxima à cidade. Tiramos muitas fotos e ficamos a apenas uns 5 metros desses enormes mamíferos. Muito legal.
Foi uma viagem inesquecível, presente de Deus.
As fotos (selecionadas entre mais de 700!) mostram um pouco da nossa experiência.
Agora é continuar aguardando os vistos...
Legenda das fotos de baixo para cima: 1)Família em frente à estátua do David Livingstone 2a5)Fotos no parque das Cataratas de Victoria 6)David e Paula na ponte sobre o canion do Rio Zambezi, dividindo Zimbábue e Zâmbia 7)Meninos estudando na varanda da nossa casa em Victoria Falls 8)Javalis em frente a nossa casa 9 a 12)Girafas, crocodilo e hipopótamos que vimos na região 13)Elefantes no poço em frente ao hotel no condomínio onde estávamos

sábado, 7 de maio de 2011

Dr Collins ou Charlie Sheen?


Esse simpático senhor da foto se chama Steve Collins. Ele nasceu no interior de Angola, filho de missionários que trabalhavam na área rural, na primeira metade do século XX. Ele viveu em Angola a maior parte de sua vida, apesar de ter saído para estudar no Canadá, terra de seus pais, onde se formou em medicina. Voltou para exercer a medicina em Angola, e, nos anos da guerra ainda, sentiu a necessidade de se especializar em cirurgia para cataratas. De volta a Angola, ele viaja por todo o país dando literalmente "vista aos cegos". É uma alegria ver pessoas idosas, que às vezes estão há anos sem enxergar nada, de um dia para o outro terem sua visão restaurada. É comum ver essas pessoas cantando e dançando de alegria depois de poderem ver novamente.

Aí você pode estar se perguntando o que o Charlie Sheen tem a ver com isso. Bem, na verdade nada. Me chamou a atenção há alguns dias as notícias de que o Charlie Sheen, figura freqüente na mídia, ultimamente com notícias focalizando sua vida de vícios e promiscuidade, após ser desligado da série "One and a Half Man", teve os ingressos para sua recém-lançada turnê rapidamente esgotados, e teve o recorde de seguidores do Twitter ao abrir sua conta, atingindo um milhão de seguidores em 24 horas.

A pergunta que eu faço é por que o mundo provavelmente nunca vai ouvir falar do Dr Collins, com todo o bem que faz aqui, e a notoriedade que pessoas como Charlie Sheen, Britney Spears, Lindsay Lohan, Paris Hilton, só para citar alguns, atingem. O mundo coloca nos holofotes essas pessoas que têm muito pouco a oferecer (na verdade são dignos da nossa compaixão e não da nossa admiração ou inveja), ignorando pessoas com uma grandeza de caráter enorme, que passam suas vidas no anonimato em certo sentido.

Isso talvez nos mostre quais são realmente os valores de nossa sociedade, por mais que tentemos nos convencer que a bondade, a caridade, o amor, o auto-sacrifício, etc, são valorizados por nós como sociedade. Que mais pessoas possam começar a "seguir" os Dr Collins da vida e menos os "Charlie Sheens".

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Vencemos a viagem!



Estávamos preocupados com a viagem que faríamos: mais ou menos 1300 km, sendo 450 em Angola e o restante na Namíbia. A parte de Angola tem um trecho de 90km em que 80km estão totalmente destruídos, diferentemente do restante do trajeto. Levamos 4 horas (literalmente) para percorrer esses 80 km, e outras 4 horas para percorrer os outros 380 km em que as condições são boas. A foto da postagem mostra um pouco da situação. Se repararem, há uma estradinha ao lado da estrada principal. Na verdade, sempre há duas ou três estradas menores, abertas devido às péssimas condições da estrada principal. Isso leva a gente a perguntar por que se abrem estradas paralelas e não se conserta a estrada principal. Por que, quando o país recebe divisas devido à exportação de petróleo e diamantes principalmente, não se investe na principal via de comércio terrestre, que traz coisas da Namíbia e da África do Sul, evitando atrasos, perdas, etc? Parece que a resposta é óbvia, não muito diferente do que temos no Brasil, apenas um pouco piorado: os governantes estão mais preocupados com seus próprios "problemas" do que com os problemas do país.
A outra foto é da famosa árvore daqui, muito vistosa, o umbundeiro, símbolo da terra e também lugar ao redor do qual a comunidade se reúne. Muito bonita árvore. No nosso caminho, era fonte de inspiração e também providenciava o único local de abrigo em quilômetros e quilômetros de estrada sem posto ou lanchonete disponíveis.
Na fronteira, outra "batalha" que temíamos em parte, foi tudo relativamente tranquilo. O único problema é que apesar de estarmos no domingo de páscoa e próximo ao horário de fechamento da fronteira, não tínhamos o tumulto de sempre mas havia literalmente dezenas de jovens tentando "ajudar". Só que essa "ajuda" não era muito bem vinda. Eles nos cercam, querendo nos direcionar no que fazer, mas em troca de dólares e numa disputa acirrada entre eles. Uma situação muito desconfortável. Para piorar a situação, não há qualquer sinalização ou direcionamento por parte dos funcionários da fronteira, e um guarda quis me "multar" dizendo que parei o carro no lugar errado, apesar de haver dezenas de outros carros lá e não haver qualquer indicação de onde se deve parar. Argumentei com ele o absurdo da tal multa, que obviamente era só uma tentativa de extorquir, dada a inconsistência da mesma. Ele acabou amolecendo, apesar de que o rapaz que acabou nos "ajudando" disse que o guarda estava esperando seu "pagamento". Pregamos para o rapaz, que estava quase alcoolizado, e falamos da esperança em Cristo para uma nova vida. Ele acabou concordando que não deveríamos dar a grana que o guarda pediu e passamos sem maiores problemas, graças a Deus.
No lado da Namíbia ainda eram cerca de 800km a vencer, mas pernoitamos perto da fronteira e no outro dia fizemos a viagem sem maiores problemas. Nos chamou atenção que enfrentamos umas 6 ou 7 barreiras policiais, mas, ao invés de estarem atrás de propinas, estavam mesmo buscando irregularidades, especialmente motoristas que estavam excedendo no feriado prolongado, seja na bebida ou na velocidade.
Com um coração agradecido e aliviado chegamos no fim do segundo dia a Windhoek, capital na Namíbia, onde vamos aguardar nosssos vistos para voltarmos ao trabalho.
Orem conosco para que nosso tempo aqui seja breve e abençoado.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Terra da vida e da morte

A taxa de natalidade aqui é incrível. Dá uma média de seis filhos por mulher. É muito comum a gente encontrar mulheres jovens com oito e até dez filhos. Um amigo nosso ginecologista do Brasil disse que estava ajudando em um projeto de atendimento de casos de infertilidade em Luanda e nossa reação foi mais ou menos assim: você está louco? O que eles mais têm aqui é fertilidade.

O triste é que muitas vezes, dos oito ou dez filhos, 2 ou 3 ou 4 já morreram, por muitos motivos, geralmente ainda pequenos. Além da enorme taxa de natalidade, a mortalidade infantil é altíssima, e a expectativa de vida aqui ainda é na faixa dos 40 anos de idade. A malária, a febre tifóide, a tuberculose, sem falar na SIDA, matam muito aqui, sem contar as outras causas comuns também ao resto do mundo.

No último sábado assinei três atestados de óbito (e olha que o hospital só tem cerca de 35 leitos). Um dos casos não me deixou tão triste, já que era um senhor que vinha sofrendo de câncer de estômago já há dois anos, e sabíamos que ia morrer a qualquer momento. Os outros dois porém me deixaram muito triste: um era uma criança de 6 anos, que estava há vários dias no Hospital Pediátrico aqui da cidade e os pais resolveram levar para o nosso hospital. Já chegou muito grave, com infecção generalizada na barriga, causada pela bactéria Salmonella da Febre Tifóide. Uma doença basicamente causada por água não filtrada e contaminada. Dr Foster o operou mas não pode fazer muito, já que a infecção estava alastrada por todo abdome.

O outro caso me deixou também muito triste: uma criança de 9 anos, que chegou ao hospital com crises convulsivas de início há alguns dias, e não tivemos condições de dar nenhum diagnóstico específico, só descobrimos que a criança tinha também um problema no coração, que não temos certeza se fazia parte do mesmo problema. Tentamos controlar as crises, mas com dificuldades para conseguir as medicações aqui a criança acabou falecendo de complicações. Fiquei muito chateado pois não tivemos a chance nem de dar o diagnóstico; ou seja, de saber se era algo que poderia ser tratado ou não.

Assim, temos esse contraste absurdo, onde o nascimento e a morte são experiências tão frequentes aqui. Parece que as famílias estão continuamente celebrando a morte e a vida, o nascimento ou o falecimento de alguém. Talvez a morte e o nascimento sejam até um pouco banalizados, diante da frequência com que acontecem aqui.

Estava lendo um texto em que o autor chamava a atenção para o fato de que nesses momentos em especial a fragilidade humana é exposta com muita força.

Infelizmente, já que nosso hospital é mais um hospital geral e menos uma maternidade (apesar de que temos também partos lá), convivemos muito mais com a morte do que com o nascimento.

Nossa oração é que possamos ser aqui testemunhas do Senhor, o autor e doador da vida, e que venceu a morte por nós. Oramos também para que sejamos seus instrumentos para salvar vidas, tanto no sentido natural quanto no sentido espiritual.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Você já ouvir falar no Cavango?






De vez em quando aparece umas viagens muito legais. Fomos neste final de semana para uma missão onde a irmã do Dr. Foster, Shelley, que é enfermeira, e seu marido Peter moram. O lugar é no meio do nada e, por isso mesmo, se parece mais com a África que a gente conhece nos filmes. Muito lindo! Tem um rio maravilhoso que passa a uns 3 km da casa deles. O nome do lugar é Cavango, e é onde o pai deles, Dr. Bob Foster, morou muitos anos, na década de 60 e 70, construindo um hospital onde havia uma colônia de leprosos. Eles agora reconstruíram lá uma clínica onde o Du foi dar umas consultas. Fomos no aviãozinho da Asas do Socorro. Um barato voar baixinho sobre o rio! O que é muito triste é que na missão do Cavango, onde havia um hospital e várias casas de missionários e funcionários do hospital, e os doentes, hansenianos ou não, com suas família, também moravam por ali. Aí, no início da guerra, chegaram as tropas do governo com soldados cubanos e destruíram tudo. A família do Dr. Foster morava lá e eles só não morreram porque estavam viajando, mas perderam tudo. Os leprosos que não conseguiram fugir foram mortos por pura covardia. Dá uma tristeza ver tantas ruínas ali, sinais muito fortes de toda a destruição que significou a guerra, marca visível da maldade humana. Mas a esperança renasce, não é mesmo? O pessoal está aproveitando o alicerce que ficou das casas e do hospital prá tentar reconstruir o lugar. Tem muitas ruínas de casas e até de uma igreja que era bem grande. Eles estão com planos de reconstruí-la sobre o alicerce antigo. É muito trabalho mesmo! A própria casa da irmã do Dr. Foster foi construída sobre as ruínas de uma casa de um dos missionários. Todo o material foi trazido de navio dos Estados Unidos, mas valeu a pena, porque a casa ficou ótima! No domingo o Du pregou na igrejinha de local, para mais de 200 pessoas, com tradução simultânea para a língua local ganguela. Na volta aqui para Lubango, sobrevoamos a Tunda Vala, aquela fenda enorme que forma um desfiladeiro e é um dos pontos turísticos mais famosos de Angola. Simplesmente deslumbrante!
OBS: Mensagem escrita pela Norinha e editada por mim

segunda-feira, 21 de março de 2011

Convidados para a grande festa

Todas as segundas-feiras há um culto para os pacientes no hospital. Já preguei algumas vezes ali e nessa semana novamente fui convidado a dar “a palavra”. Fiz uma meditação na parábola da grande festa, relatada no evangelho de Lucas capítulo 14:15-24. Nessa história, Jesus conta sobre o “grande banquete apocalíptico”, ou seja, o banquete final, imagem da restauração e redenção final da humanidade, vivendo na presença de Deus em paz e justiça afinal. Porém, nessa história, surpreendente e injustificadamente, muitos se recusam a ir. Contei a história e fiquei imaginando quantos ali que me ouviam não tinham o suficiente sobre suas mesas, mas estavam convidados a participar desse banquete. Aliás, os ricos da parábola nem quiseram ir ao banquete, preferindo se distrair com seus próprios afazeres, suas próprias posses, ou seus próprios relacionamentos. Os que eram pobres, aleijados, alijados, foram os que acabaram assentando-se à mesa. Assim eram muitos ali: doentes, com incapacidades físicas, sociais, financeiras, mas que podiam desfrutar já antecipadamente da paz, alegria e da festa de ser aceito por Deus, e se relacionar com Ele. Sei que isto pode soar como escapismo ou apenas uma idéia etérea para minimizar os problemas terrenos reais, mas não vejo assim. É uma esperança real, concreta, que anima e motiva, sabendo que o bem há de prevalecer, como todos os bons filmes testificam. Nos leva também a no presente lutar por uma sociedade mais justa e fraterna, sinal do Reino de Deus entre nós.